Há três anos, a Praça das Acácias, no bairro Água Verde, em Curitiba, era um lugar que os moradores evitavam. O gramado estava tomado por mato, os bancos quebrados e, nas noites de verão, o espaço virava ponto de descarte irregular de lixo. Ninguém passava por ali sem acelerar o passo. Hoje, aos sábados de manhã, a praça enche de crianças correndo, idosos tomando chimarrão na sombra das árvores recém-plantadas e voluntários com luvas e enxadas. O que mudou não foi um decreto municipal — foi um projeto de vizinhança que começou com uma conversa no grupo do condomínio.
A história começou em março de 2023, quando Helena Ferreira, professora aposentada de 62 anos, postou uma foto da praça no grupo de WhatsApp do quarteirão. "Alguém mais acha vergonhoso isso aqui do lado de casa?", escreveu ela. Em menos de uma hora, quinze vizinhos responderam. No domingo seguinte, oito pessoas apareceram com vassouras, sacos de lixo e um roçador emprestado. Não havia associação formal, nem verba pública, nem plano de cinco anos. Havia apenas a vontade de recuperar um espaço que, segundo dados da prefeitura consultados pela reportagem, não recebia manutenção regular há mais de sete anos.
Do mutirão ao hábito
O primeiro sábado de trabalho rendeu quatro toneladas de entulho e mato recolhidos — número confirmado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente após contato da redação. Os vizinhos não pararam por aí. Criaram o grupo "Praça Viva Água Verde" e estabeleceram mutirões semanais, sempre às 8h da manhã. A regra era simples: quem puder, vem; quem não puder, contribui de outra forma — com café, com ferramentas ou com divulgação.
João Pedro Almeida, engenheiro civil de 38 anos que mora na Rua Chile, foi um dos primeiros a se envolver. "Eu achava que precisava de licitação, de projeto arquitetônico, de um monte de burocracia", conta ele. "A Helena me mostrou que dá para começar pequeno e ir crescendo." João Pedro desenhou um plano simples de drenagem para evitar poças na época de chuva e ajudou a montar canteiros com hortaliças que hoje alimentam uma feirinha mensal beneficente no próprio bairro.
"A praça não é da prefeitura nem nossa — é de todo mundo. Quando a gente cuida, o espaço cuida de volta da gente."
Esse depoimento é de Dona Conceição, de 74 anos, moradora do bairro há quase cinco décadas. Ela lembra quando a praça era ponto de encontro das famílias nos anos 1980. "As crianças brincavam de pipa, os pais jogavam dominó nos bancos. Depois foi ficando abandonada, e a gente se acostumou com a tristeza." Hoje, Dona Conceição coordena um círculo de leitura que acontece às quintas-feiras, às 15h, debaixo do quiosque reformado pelos moradores.
Parcerias sem perder a autonomia
Em agosto de 2024, o grupo formalizou-se como associação de moradores junto ao Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas. Isso abriu portas para parcerias — mas sem transferir o controle do projeto. A prefeitura de Curitiba, por meio do programa "Curitiba Mais Verde", doou 120 mudas de árvores nativas e instalou duas lixeiras de coleta seletiva. Uma empresa local de materiais de construção patrocinou a reforma do playground, com contrapartida de placa discreta na entrada da praça. O grupo recusou propostas que exigiam exclusividade comercial ou publicidade invasiva.
A professora Helena, hoje presidente da associação, explica a lógica: "Parceria é bem-vinda quando respeita o que a comunidade decidiu. Não vamos vender a praça para ninguém." A associação mantém atas públicas de todas as reuniões e publica relatórios trimestrais de gastos no mural da praça e em grupo aberto na internet.
Resultados que vão além do jardim
Os números ajudam a dimensionar o impacto. Segundo levantamento feito pela própria associação com apoio de estudantes de geografia da Universidade Federal do Paraná, o índice de percepção de segurança no quarteirão subiu de 34% para 78% entre 2023 e 2025. O comércio local também sentiu efeitos: o Sebrae Paraná, consultado pela reportagem, aponta aumento médio de 12% no faturamento de estabelecimentos num raio de duas quadras após a revitalização.
Mas os moradores insistem que o ganho mais importante é outro. "A gente se conheceu de verdade", diz Juliana Martins, mãe de dois e designer gráfica. "Antes eu cumprimentava o vizinho no elevador. Agora sei o nome dos filhos dele, ajudo na feirinha e tenho com quem deixar a chave quando viajo." Esse tecido de confiança foi testado na enchente de janeiro de 2025, quando moradores da Praça Viva organizaram abrigo temporário no salão de festas do condomínio vizinho para famílias desalojadas.
Lições para outras cidades
O caso da Praça das Acácias não é isolado — Curitiba tem dezenas de iniciativas semelhantes registradas no mapa colaborativo "Bairro em Ação", mantido por uma ONG local. O que o projeto de Água Verde tem de particular é a consistência: três anos de mutirões semanais sem interrupção, mesmo nos meses de frio intenso típicos do sul do país.
Para quem quer replicar a experiência, os moradores deixam conselhos diretos: comece pequeno, documente tudo, não espere permissão para limpar lixo, mas formalize a associação antes de aceitar doações maiores, e mantenha o projeto aberto a quem chegar. "Vizinhança não é clube fechado", resume Helena. "É praça aberta."
A Praça das Acácias segue em transformação. O próximo passo, aprovado em assembleia em maio de 2026, é instalar placas solares no quiosque para iluminação noturna autossustentável. O projeto de vizinhança continua — e, desta vez, com luz própria.